Memória · Estuário do Tejo
História do Tejo
Antes de ser rota de navegação, o Tejo foi casa, estrada e porta para o mundo. Uma viagem pelos séculos de quem viveu e navegou o estuário.
Há 5 a 1 milhões de anos
A origem do rio e a antiga foz
Nem sempre o Tejo saiu ao mar entre Lisboa e Almada. No Pliocénico, o pré-Tejo espraiava-se pela grande bacia do Baixo Tejo e Sado e desaguava mais a sul, na zona da atual Lagoa de Albufeira, como mostram os calhaus rolados de granito, sienito de Sintra e basalto de Lisboa encontrados em Porto do Concelho, a caminho de Sesimbra. Mais tarde, um sistema de falhas de direção este–oeste abriu o gargalo entre Lisboa e Almada e capturou o rio. Nas glaciações, quando o mar baixou, o Tejo escavou esse canal até dezenas de metros abaixo do nível atual; ao subir de novo, o mar inundou o vale e nasceu o estuário que hoje navegamos.

O estuário visto do espaço, em imagem de radar do satélite Envisat, 2007Agência Espacial Europeia (ESA) · CC BY-SA 3.0 IGO Há cerca de 8000 anos
Os primeiros povos do estuário
Nos vales de Muge, comunidades de caçadores-recolectores viviam do rio: peixe, bivalves e caça. Os grandes concheiros que deixaram são dos mais importantes do Mesolítico europeu e mostram que o Tejo sempre deu de comer a quem vive nas suas margens.
Antiguidade
Fenícios e Olisipo romana
O abrigo natural do estuário atraiu navegadores do Mediterrâneo. Os romanos fizeram de Olisipo um porto importante e encheram as margens de fábricas de salga de peixe e de garum, cujos tanques ainda hoje se veem na Baixa de Lisboa.

Vestígios romanos no Núcleo Arqueológico da Rua dos Correeiros, na Baixato lobato · CC BY 2.0 Séculos VIII a XII
Al-Ushbuna e a conquista de 1147
Sob domínio muçulmano a cidade cresceu à volta do rio e do comércio. Em 1147 D. Afonso Henriques tomou Lisboa com a ajuda de cruzados que tinham entrado no Tejo a caminho da Terra Santa — a conquista fez-se também por água.
Séculos XV e XVI
O rio dos Descobrimentos
Na Ribeira das Naus construíam-se e armavam-se os navios; do Restelo partiu Vasco da Gama em 1497 para a Índia. A Torre de Belém guardava a barra e o Tejo tornou-se a porta de Portugal para o mundo, cheio de naus, caravelas e de toda a pequena navegação que as servia.

Lisboa e o Tejo cheio de naus e caravelas, na gravura de Braun e Hogenberg, 1572Georg Braun e Franz Hogenberg · Domínio público A Ribeira de Lisboa · de nascente para poente
Não havia um porto único, mas uma sucessão de praias, cais, varadouros, estaleiros, armazéns e edifícios régios ao longo da margem, fora da cerca medieval. Cada espaço tinha a sua função — e o rio ligava tudo.
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Cais da PedraA porta de carga oriental
Construído a partir dos últimos anos do século XV, permitia a acostagem de navios de maior calado. Por aqui passavam cereais, vinho, azeite, madeira e ferro para a cidade, e especiarias, corantes e metais preciosos vindos de África, da Ásia e, mais tarde, do Brasil.
Hoje: Extremo oriental da antiga Ribeira
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Terreiro do PaçoO poder junto do rio
Com D. Manuel I o paço real desceu para a margem, voltado para o Tejo. O rei acompanhava o movimento do porto e das armadas, e à sua volta concentravam-se os serviços que administravam o comércio ultramarino.
Hoje: Praça do Comércio
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Casa da Índia e ArmazénsAdministrar o que chegava pelo rio
Instalada no Paço da Ribeira, reunia desde 1504 o comércio de África e da Ásia: feitoria, alfândega, arquivo e contabilidade. Pimenta, canela, cravinho, noz-moscada e gengibre seguiam do navio para o registo, o armazém e a redistribuição.
Hoje: Junto à Praça do Comércio
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Ribeira das NausO grande estaleiro do reino
Aqui se construíam, armavam e reparavam as naus da Carreira da Índia. No século XVI trabalhavam ali mais de duzentos carpinteiros navais e cerca de uma centena de calafates, além de ferreiros, cordoeiros, remolares e veleiros.
Hoje: Avenida da Ribeira das Naus
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Praia de Cata-que-FarásA oficina de manutenção da frota
Areal de margem suave onde as naus regressadas eram varadas, espalmadas, calafetadas e reparadas. Em 1515, D. Manuel I mandou mantê-la livre de construções, por ser lugar «onde se possam espalmar e corrigir as naus».
Hoje: Cais do Sodré e Praça Duque da Terceira
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Corpo SantoA comunidade dos mareantes
Bairro da igreja e confraria do Corpo Santo, venerada pelos homens do mar. Viviam aqui marinheiros, mestres, pilotos, pescadores e mercadores, com armazéns, oficinas e pequenos ancoradouros para o transporte local e a pesca.
Hoje: Entre o Cais do Sodré e Santos
Os aterros dos séculos XVIII e XIX mudaram por completo esta margem: a linha de água de então está hoje debaixo de ruas e praças.
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1755
O terramoto e o maremoto
A 1 de novembro de 1755 o terramoto destruiu Lisboa e o rio subiu sobre a Baixa num maremoto que levou cais e embarcações. A cidade foi reconstruída de frente para o Tejo, com a Praça do Comércio aberta ao rio.

Lisboa em ruínas e em chamas, com o maremoto a varrer os cais. Gravura em cobre feita em 1755Autor desconhecido · Domínio público Séculos XVIII a XX
A estrada de água
Antes das pontes e das estradas, era o rio que ligava Lisboa à margem sul e à Lezíria. Fragatas, varinos, botes e faluas levavam sal, cortiça, cereais, vinho, lenha e gado; na margem sul trabalhavam os moinhos de maré. Os vapores e depois os cacilheiros passaram a ligar as duas margens todos os dias.

Moinho de Maré do Cais das Faluas, no Montijo, onde chegavam as faluas vindas de LisboaJorge de Carvalho · CC BY-SA 4.0 Os cais da estrada de água · séculos XVIII a XX
Fragatas e varinos levavam cortiça, cereais, areia, carvão e sal; as faluas e os botes levavam gente. Cada cais de Lisboa tinha a sua especialidade e a sua margem do outro lado.
Lisboa
Cais de Santarém
Onde aportavam os produtos vindos de Santarém e do Ribatejo. Já existia antes de 1755 e aparece nas descrições de 1758; no fim do século XVIII vendiam-se ali louça e fruta.
Hoje: Rua do Cais de Santarém, entre o Terreiro do Trigo e o Campo das Cebolas
Cais das Colunas
Nascido com a reconstrução pombalina, era a entrada nobre de Lisboa, onde desembarcavam reis e chefes de Estado. Daqui saíam também barcos para Cacilhas.
Hoje: Praça do Comércio (colunas retiradas em 1997 e repostas em 2008)
Cais do Sodré e Ribeira
Pouco depois de 1755 começou aqui o mercado que viria a ser o grande abastecedor da cidade; o edifício atual do Mercado da Ribeira é de 1882. A partir de 1855 a zona encheu-se de armazéns ligados à importação e exportação.
Hoje: Estação fluvial para Cacilhas, Seixal e Montijo
Cais do Tojo (Boavista)
Em 1766 era o lugar de descarga e venda de tojo, carqueja, carvão e lenha — o combustível de fornos e lareiras de Lisboa, trazido de barco da outra banda.
Hoje: Rua e Travessa do Cais do Tojo, Largo Vitorino Damásio
Margem sul e Ribatejo
Aldeia Galega (Montijo)
Passagem obrigatória da Estrada Real para Badajoz: quem ia de Lisboa para o Alentejo e Espanha atravessava o rio nas faluas até ao Cais das Faluas. Para Lisboa seguiam vinho, sal, fruta e lenha. Em 1852 foi construída uma ponte-cais de 315 metros.
Hoje: Cais do Montijo, ligação fluvial a Lisboa
Seixal e Corroios
A zona de maior concentração de moinhos de maré, que moíam o cereal para Lisboa; as fragatas carregavam a farinha nas suas docas. O moinho de Corroios, mandado construir em 1403 por D. Nuno Álvares Pereira, é hoje museu.
Hoje: Moinho de Maré de Corroios e Núcleo Naval do Seixal
Barreiro, Moita e Alhos Vedros
Outra linha de moinhos de maré e de vento e de pequenos portos de onde saíam fragatas e varinos com cereais, cortiça, areia e carvão. O «barco da carreira» ligava-os a Lisboa.
Hoje: Moinho de Maré de Alhos Vedros; varino Boa Viagem, na Moita
Alcochete
Terra de salinas: o sal do Tejo seguia por água para Lisboa e para os navios fundeados no rio. O transporte entre as margens viveu aqui o seu grande desenvolvimento entre os séculos XVI e XIX.
Hoje: Salinas e frente ribeirinha de Alcochete
Cacilhas
O cais da travessia mais curta entre as duas margens. Os barcos de passageiros que faziam a carreira Lisboa–Cacilhas ficaram conhecidos como cacilheiros.
Hoje: Terminal fluvial de Cacilhas (Transtejo)
A ponte de Vila Franca de Xira (1951), os caminhos de ferro, as estradas e depois a ponte sobre o Tejo (1966) acabaram com a navegação à vela de carga no estuário.
1966 — hoje
Pontes, porto e regresso ao rio
A ponte sobre o Tejo (hoje 25 de Abril) abriu em 1966 e a Vasco da Gama em 1998, ano da Expo. A navegação de carga tradicional quase desapareceu, mas as embarcações que sobreviveram são hoje recuperadas por associações, municípios e arrais que mantêm vivo o saber de navegar à vela no estuário.

A ponte, então chamada Salazar, vista da Torre de Belém em agosto de 1967Daniel Villafruela · CC BY-SA 3.0

Capítulo
Barcos típicos do Tejo
Fragatas, varinos, botes, faluas, catraios, muletas: como eram os barcos da estrada de água, para que serviam e onde se podem ver hoje.
Um bote do Tejo
O Chigadinho
O Chigadinho é um bote tradicional do Tejo que continua a navegar no estuário. A sua história — e a do rio que o construiu — é contada no livro do seu arrais.
CHIGADINHO – A Viagem do Tejo e a História de um BoteJorge Branquinho · Arrais do bote Chigadinho