Memória · Embarcações tradicionais

Barcos típicos do Tejo

Fragatas, varinos, botes, faluas, catraios e muletas: os barcos que fizeram do rio uma estrada de água, como eram, para que serviam e onde se podem ver hoje.

Embarcação tradicional do Tejo à vela, com vela grande e estai
Embarcação tradicional do Ecomuseu Municipal do Seixal a navegar no Tejo, 2006Jean-Pierre Dalbéra · CC BY 2.0

Uma frota de milhares

1490

barcas e batéis serviam Lisboa em 1552, segundo os registos da época, enquanto perto de 1500 naus e outros navios entravam todos os anos no porto. Até meados do século XX, era pelo rio que se ligavam as duas margens, a costa e o interior.

Passageiros

catraio, caíque, bote, batel, canoa, falua e bote cacilheiro

Mercadorias

barcos dos moinhos, barcos de Riba-Tejo, cargueiros, bateiras, faluas, canoa cacilheira, varinos e fragatas

Pesca

caíques, saveiros e muletas

Pintura de uma fragata do Tejo à vela
Fragata do Tejo, pintura de Manuel JorgeManuel Jorge · CC BY-SA 4.0
01Carga

Fragata

A maior e mais emblemática embarcação de carga do estuário, a que chamavam «rainha do Tejo».

Bojuda, pesada e com quilha, a fragata carregava e descarregava os navios fundeados no porto de Lisboa e levava mercadoria entre os cais das duas margens. Conforme o tamanho, transportava de 10 a 100 toneladas.

Tinha duas câmaras, uma à proa e outra à ré, e uma tripulação pequena, de três a cinco homens. Quando faltava o vento, era o pequeno bote que levava consigo que a rebocava a remos.

Com os varinos, foi das últimas a resistir. Desapareceu sobretudo a partir de 1966, com a ponte sobre o Tejo e o transporte por estrada.

Velas e mastro
Um só mastro, muito inclinado para ré, com vela grande e uma ou duas velas de estai à proa.
Medidas e carga
20 a 25 m de comprimento · 10 a 100 t de carga · 3 a 5 tripulantes

Fonte: Luís Bayó Veiga, «Breve História das Embarcações do Estuário do Tejo», getLISBON, 2022; Associação Náutica da Gafanha da Encarnação, «Embarcações tradicionais» (ange.pt)

02Carga

Varino

Elegante e de fundo chato, ia buscar carga onde as fragatas não chegavam.

O nome parece vir dos «ovarinos», barcos de Ovar. Tem casco bojudo como a fragata, mas sem quilha: fundo chato, proa redonda, alongada e recurvada para dentro, e leme comprido.

O fundo chato deixava-o carregar em pontos inacessíveis às fragatas e fazer o transbordo entre os navios e terra. O «Boa Viagem», hoje da Câmara Municipal da Moita, passou quase setenta anos, com o nome «Albano I», a levar cortiça em bruto e trabalhada das fábricas do Seixal, Alhos Vedros, Moita, Montijo e Vila Franca de Xira.

Os varinos deixaram de trabalhar na década de 70, vencidos pela motorização, pela camionagem e pelas pontes de Vila Franca de Xira e de Lisboa.

Velas e mastro
Mastro inclinado para ré, com vela latina quadrangular e vela de estai à proa.
Medidas e carga
O «Boa Viagem» tinha 50 t de arqueação, aumentadas para 60 t em 1962
Onde ver hoje
  • «O Boa Viagem», Câmara Municipal da Moita (registado em 1900, municipal desde 1980)
  • «Liberdade», Câmara Municipal de Vila Franca de Xira (construído em Abrantes em 1945, municipal desde 1988)
  • «Amoroso» (1921), Câmara Municipal do Seixal
  • «Pestarola», Câmara Municipal do Barreiro

Fonte: Museu de Marinha, «Doação do modelo O Boa Viagem», 2023 (cultura.marinha.pt); Maria Clara Santos, «História e Recuperação do Varino O Boa Viagem», Musa n.º 4, 2014; Câmara Municipal do Seixal (cm-seixal.pt); Regulamento do Varino Pestarola, Câmara Municipal do Barreiro, 2010; L. Bayó Veiga, getLISBON, 2022

03Carga

Bote de fragata

Mais pequeno do que a fragata, fazia o tráfego local entre os cais e os portos do estuário.

Os botes de fragata levavam carga entre os cais e os pequenos portos do estuário e trabalharam até ao início dos anos 70 do século XX.

Alguns foram comprados e recuperados por municípios ribeirinhos e voltaram a navegar à vela, com tripulação própria, em passeios entre a primavera e o outono, para mostrar e passar a outros o saber de navegar à vela no Tejo.

Onde ver hoje
  • «Baía do Seixal» (1914), Câmara Municipal do Seixal
  • «Gaivotas» (1934), Câmara Municipal do Seixal

Fonte: Câmara Municipal do Seixal, «Rota da Ecologia e do Trabalho no Tejo» (cm-seixal.pt); L. Bayó Veiga, getLISBON, 2022

Aguarela de uma embarcação com duas velas latinas no Tejo
Embarcação de vela latina em Lisboa, aguarela de Edward Gennys Fanshawe, 1856. O autor não indica o tipo do barco.Edward Gennys Fanshawe · Domínio público
04Carga e passageiros

Falua

Levava gente e carga de uma margem à outra.

A falua fazia o transporte de passageiros e de carga entre as duas margens do Tejo.

Na Aldeia Galega, hoje Montijo, passava a Estrada Real para Badajoz: quem ia de Lisboa para o Alentejo e Espanha atravessava o rio nas faluas até ao Cais das Faluas, onde ainda está o moinho de maré com o mesmo nome.

Velas e mastro
Velas latinas triangulares.
Medidas e carga
Porte médio, entre o bote e a fragata

Fonte: Wikipédia, «Falua»; L. Bayó Veiga, getLISBON, 2022

05Passageiros

Bote

Pequeno e versátil, servia para levar pessoas e carga entre as margens.

«Bote» era o nome de várias embarcações mais pequenas do Tejo, usadas no transporte de passageiros e de carga.

O bote «Leão» ligou Alcochete a Lisboa desde o fim do século XIX até aos anos 60. A Câmara Municipal de Alcochete mandou construir de raiz um novo «Leão», com as técnicas dos antigos barcos do Tejo, que navega desde 2016.

Onde ver hoje
  • «Leão», Câmara Municipal de Alcochete (construído de novo, navega desde 2016)

Fonte: L. Bayó Veiga, «Tours on Traditional Boats of the Tagus Estuary» e «Breve História das Embarcações do Estuário do Tejo», getLISBON

Gravura de um catraio e de um bote cacilheiro à vela no Tejo
Um catraio e um bote cacilheiro, gravura de João Pedroso no Archivo Pittoresco, 1860João Pedroso · Domínio público
06Passageiros

Catraio e bote cacilheiro

Os pequenos barcos de passageiros da travessia, antes dos vapores.

Catraios, botes cacilheiros, batéis e canoas levavam passageiros entre Lisboa e a outra banda. Os barcos da carreira Lisboa–Cacilhas ficaram conhecidos como cacilheiros, nome que passou depois para os navios a motor que ainda hoje fazem a travessia.

Com a chegada dos vapores, primeiro de rodas e depois de hélice, os pequenos barcos de passageiros foram desaparecendo.

Fonte: L. Bayó Veiga, getLISBON, 2022; Archivo Pittoresco, tomo III, n.º 31, 1860

A muleta Álvaro Velho atracada na Doca da Marinha, em Lisboa
A muleta «Álvaro Velho», do Barreiro, na Doca da Marinha, Lisboa, 2024DavidFerreira20048 · CC BY-SA 4.0
07Pesca

Muleta

O barco de pesca do Seixal e do Barreiro, com um velame que não se parece com nenhum outro.

Barco de pesca de arrasto à vela, armado no Seixal e no Barreiro, que o têm no brasão. Pescava com a tartaranha, uma rede de arrasto pelo fundo em forma de saco, nos estuários do Tejo e do Sado e no mar entre o cabo da Roca e o cabo Espichel, sobretudo azevia, linguado e solha.

Caiu em desuso no fim do século XIX e foi substituída pelo bote de tartaranha, que pescou até ao fim da Segunda Guerra Mundial.

A Câmara Municipal do Barreiro mandou construir de raiz a muleta «Álvaro Velho», no estaleiro do Mestre Jaime Ferreira da Costa, que navega desde 2022.

Velas e mastro
Muitas velas, triangulares e retangulares, armadas à proa e à ré.
Onde ver hoje
  • «Álvaro Velho», Câmara Municipal do Barreiro (construída de novo, navega desde 2022)

Fonte: Wikipédia, «Muleta (embarcação)»; L. Bayó Veiga, «Tours on Traditional Boats of the Tagus Estuary», getLISBON

Pormenor colorido da pintura da proa de uma embarcação da Moita, com flores e figuras
Pinturas tradicionais de embarcações do concelho da MoitaLeoTorres · CC BY-SA 4.0

As pinturas

Cada estaleiro, a sua mão

Os barcos do Tejo variavam de forma, tamanho e cor conforme o serviço, o caminho que faziam e o estilo de cada estaleiro e de cada terra. As pinturas da proa e da popa, de cores vivas, com paisagens, cenas religiosas, flores, números e letras, eram obra do gosto e da criatividade dos pintores de cada estaleiro.

Na recuperação do «Boa Viagem», em 2010 e 2011, no estaleiro de Sarilhos Pequenos, o Mestre Jaime Costa usou as técnicas antigas de carpintaria naval, de calafeto e de pintura tradicional.

Onde nasciam

Os estaleiros do rio

Todos eram de madeira, feitos em estaleiros das vilas ribeirinhas, sobretudo na margem sul.

Margem sul
Aldeia Galega (Montijo), Alcochete, Sarilhos Pequenos, Barreiro, Seixal, Amora e Arrentela
Estaleiros artesanais
Caramujo, Margueiras, Ginjal e Porto Brandão
Rio acima
Valada, Punhete (Constância) e Rossio ao Sul do Tejo

Fim e regresso

Porque desapareceram, e quem os trouxe de volta

Os vapores, primeiro de rodas e depois de hélice, acabaram com os pequenos barcos de passageiros. A ponte de Vila Franca de Xira, em 1951, tirou o lucro à navegação rio acima. Fragatas e varinos aguentaram mais tempo, mas a motorização, a camionagem e a ponte sobre o Tejo, em 1966, acabaram com eles na década de 70. Por volta de 1980, dezenas de barcos apodreciam abandonados nas margens.

Em 1980 a Câmara Municipal da Moita comprou o varino que viria a chamar-se «O Boa Viagem», o primeiro passo para salvar os barcos típicos do Tejo. Seguiram-se outros municípios ribeirinhos, como o Seixal, Alcochete, Vila Franca de Xira e o Barreiro, além de associações e particulares que mantêm vivo o saber de navegar à vela no estuário. Alguns destes barcos estão também na página Frota atual.

Embarcações tradicionais engalanadas com bandeiras, fundeadas junto a Alcochete
Embarcações tradicionais engalanadas em Alcochete, 2008andre.torgal · CC BY-SA 2.0

Registo

Os barcos típicos que navegam hoje

82 embarcações, com a tipologia, o ano de construção e o proprietário. Como na Marinha a idade é um posto, vêm da mais antiga para a mais recente.

Lista em atualização

  • Péleve1900CatraioMuseu de Marinha
  • Aurora1906CanoaLuís Guerreiro
  • Baía do Seixal1914Bote de fragataCâmara Municipal do Seixal
  • Benfica1918CanoaFamília de Manuel F. Amador de Matos
  • Catraia de Lisboa1919CanoaFernando Belourico
  • Búzio1920CatraioAntónio Gatinho
  • Amoroso1921VarinoCâmara Municipal do Seixal
  • Zérrui1922CanoaJoão Miguel Romba
  • Bonitinha1923CanoaAntónio Mendes/Sofia Tavares/Justo Tavares
  • Estrela da Madrugada1923CanoaNádia Sofia Barbosa Pereira
  • Senhora da Atalaia1923CanoaPedro Fazenda
  • Emília de Oliveira1924CanoaJoão Manuel C. Oliveira
  • Boneca1926CanoaGrupo de amigos museu da Marinha
  • Amor ao Ofício1933FaluaPurpledimension - Representações e Serviços, Lda.
  • Deneb1933CatraioJosé A. Louro da Costa
  • Pestarola1936VarinoCâmara Municipal do Barreiro
  • Gaivina1937CanoaJoão Raimundo Lopes Gregório
  • Liberdade1945VarinoCâmara Municipal de Vila Franca de Xira
  • Ana Paula1947CanoaProfessor Fernando Carvalho Rodrigues
  • Sejas Feliz1947Bote de fragataNosso Tejo, Lda
  • Cresta1955CatraioMiguel Caninhas Veterinario
  • Oliveira Batista1955CatraioJoaquim Batista
  • Sempre se fez III1956CatraioFernando Rolando Pereira Nunes Castro
  • Vivelinda1956CanoaPedro A. Cruz Oliveira
  • Jorge Martins1959CatraioCarlos Henriques
  • Chigadinho1962CanoaPurpledimension
  • O Boa Viagem1962VarinoCâmara Municipal da Moita
  • Sempre Consegui1965CanoaManuel José Gonçalves
  • Tavaritos1965CatraioPaulo Jorge Tavares Rodrigues
  • BRIGIDA I1966CatraioManuel Luis Jesus Gameiro
  • Deolinda Maria1966CanoaCâmara Municipal do Montijo
  • Quim Zé1966CanoaJoaquim J. P. Gonçalves
  • José António I1967CatraioAdelino Neves Correia
  • Alhos Vedros1968CatraioA D N A Amigos do Mar
  • Salvaram-me1968CanoaLuis Miguel Santos Filipe
  • Ruaz1969CatraioRui Miguel Rodrigues Martins
  • Ana e André1970CatraioMoisés Preto Paulo
  • Henriques1971CatraioCarlos Manuel Pinto Henriques Rui
  • O vento1972CanoaAntónio Lobbert
  • Janecas1973CanoaJoão Paulo G. Soares
  • Pescador1977CatraioAssociação Náutica do Seixal
  • Amélia VI1978CatraioRicardo J. Correia Horta
  • Dick1980CatraioJorge Manuel Teixeira da Silva
  • Ti Fernanda1980CanoaNuno Oliveira
  • São João1981CatraioPedro M. H. Dionísio
  • Senhor dos Aflitos1981CatraioAntónio J. G. Cardoso
  • Seixaleiro1983CatraioCarlos Henriques
  • Sou do Tejo1983VarinoNosso Tejo, Lda
  • Fernando V1984CanoaMário José Marques
  • Raposinho1984CatraioAssociação Náutica do Seixal
  • Baguinho1986CatraioRui Filipe F. Pacheco
  • Céu Belchior1986CatraioJosé Alexandre Cordeiro Rosa
  • Santiago I1986CatraioBruno A. M. de Almeida
  • Canastrinha1987CanoaRubén T. Torrão Dores
  • S.Marçal1987CatraioRui Manuel da Silva Gaspar
  • Estrela do Tejo1988CatraioAPORVELA - Associação Portuguesa de Treino de Vela
  • Pardal1988CatraioAntónio Fernando Costa Cardoso
  • Estou de Volta1989CanoaLazaro Mendonça da Silva
  • Papa Milhas1990CanoaJoao Carlos Santana Rodrigues
  • Flor do Cais1991CatraioLouis Charles Teulieres
  • Senhora do Cabo1991CanoaJoão P. dos Santos Antão
  • Desvairada1993CanoaDuarte Nuno Valadas Segurado
  • Divino1993CatraioMoisés Preto Paulo
  • Ricardo I1994CatraioAdelino Neves Correia
  • Idalina1997CatraioMalaquias F. Miranda
  • Santo António1998CatraioRicardo Jorge Durão Rodrigues Conduto
  • Flor da Inveja2000CanoaFeliciano Rodrigues
  • Costa Nova2004CatraioRui Alberto Ribeiro Bela
  • Gavião dos Mares2005CanoaRicardo Jorge Durão Rodrigues Conduto
  • Esperança2006FaluaCâmara Municipal de Lisboa
  • Liberdade2006CatraioMarina M. A. C. Pignatelli
  • Malparada2007CanoaManuel P. Olho Azul Rosa
  • Senhora do Cais2008FaluaLendas do Tejo, Lda
  • Lusitana2009FaluaHernâni F. Martins José
  • Alma do Tejo2010CanoaAssociação de Classicos de Oeiras - ANCORAS
  • Bombaça2011FaluaVasco Miguel Fernandes Cardoso
  • Perdão à Saudade2013CatraioAlberto C. Sousa Pinto
  • Leão2016Bote de fragataCâmara Municipal de Alcochete
  • Madalena2016CanoaMarco D. Gonçalves Martins
  • Ala-Arriba2017CatraioRui M. Lucas Nunes
  • Esperança III2017CatraioECO NAU Turismo lda
  • Cabo da MarinhaCatraioLendas do Tejo